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choque com o pecado ou com o diferente - Imagem ilustrativa de igreja americana.

Choque com o pecado ou com o diferente?

Santidade é diferente de familiaridade

O seu choque ao se deparar com uma cultura nova, foi com o pecado ou com o diferente? No campo transcultural, o maior choque muitas vezes não é com o pecado é com o novo, com o diferente. Para explicar melhor, vou te contar uma história:

No fim do século XVIII, o tesoureiro da Universidade Harvard resolveu doar um órgão para uma igreja da Nova Inglaterra. (Ele achou que estava arrasando!) Ao saber que o instrumento estava a caminho, um membro rico da igreja suplicou, em lágrimas, para que a casa de Deus não fosse profanada. Ele prometeu reembolsar todo o custo do órgão se “aquela coisa má” pudesse ser lançada ao fundo do porto de Boston.

Talvez você tenha repudiado o “exagero” desse homem. Mas repare: ele estava, sinceramente, defendendo o que acreditava ser a santidade do culto. O medo dele não era, em primeiro lugar, “música nova”. Era a sensação de que algo “de fora” estava atravessando as portas do sagrado e bagunçando a ordem que ele aprendeu a associar à reverência. Ele confundiu santidade com familiaridade.

Quando nós é que chegamos “de fora”

Isso também acontece no campo transcultural. Afinal, lá nós é que chegamos “de fora”, e o culto “deles” é que soa estranho: o modo de vestir, de se portar, a arquitetura do lugar (ou a falta dela), o som, os ritmos, a ordem, o tempo, a língua. Diante disso, nosso cérebro começa a buscar maneiras de “colocar as coisas em ordem”. Mais especificamente, a ordem que nós conhecemos. Como consequência, e muitas vezes sem perceber, bondosamente tentamos ensinar “o jeito certo” de adorar… quando, na prática, estamos ensinando o nosso jeito de adorar.

Por isso, o choque que sentimos diz muito sobre nós. Sobre aquilo que aprendemos e como aprendemos, sobre os valores que nos foram ensinados. E por isso, precisamos aprender a reconhecer o nosso próprio impulso puritano: quando algo me parece “profanação”, é de fato uma violação bíblica real ou apenas algo diferente da forma como eu conheço?

Essa pergunta é dura porque mexe com uma camada profunda: tradição frequentemente se disfarça de verdade. Não porque tradição seja inútil (ela pode guardar memória, reverência e doutrina), mas porque também pode virar régua para medir o que “soa” como céu. Aí, o que é “da minha casa” vira sinônimo do que é “de Deus”. Quando isso acontece, a igreja local não é discipulada: ela é padronizada.

Colonização Espiritual – choque com o pecado ou com o diferente?

A padronização pode estar muito relacionada a colonização. Porém, quando falamos de colonização no contexto missionário, não estamos falando apenas de política ou história. Estamos falando de um padrão espiritual e prático. Colonização espiritual é quando o missionário (mesmo sem perceber) transfere o seu “pacote cultural” como se fosse mandamento bíblico e faz o discipulado depender disso.

Ela quase sempre se apresenta como zelo, excelência e ordem. Raramente se apresenta como dominação e, por isso, é perigosa. Pode até nascer de intenções honestas, mas produz dependência, centraliza o poder e faz a fé local parecer “incompleta” até se parecer conosco.

O evangelho faz casa e também confronta

Parafraseando Andrew Walls: o evangelho precisa realmente “fazer casa” em cada cultura e precisa também confrontar toda cultura, inclusive a minha. Por isso, a tradição pode ser tanto abrigo, quando nos ancora em Cristo e nos dá vocabulário de fé; e armadilha, quando passa a funcionar como régua universal para medir toda adoração legítima.

Toda teologia acontece em um contexto e carrega escolhas culturais. Não existe teologia desencarnada. O risco é achar que a nossa embalagem é neutra e a do outro é “cultural demais”, como se a nossa liturgia fosse “pura” e a deles, “secular”.

Um exemplo simples

Imagine um culto em que as pessoas participam com respostas em voz alta, palmas e ritmos que, aos nossos ouvidos, parecem “barulhentos”. Um missionário pode concluir rapidamente: “Falta reverência”. Mas isso é uma interpretação, não um fato.

A pergunta correta vem antes do julgamento: o que isso significa para eles? Talvez, naquela cultura, responder em voz alta seja sinal de honra ao pregador, envolvimento comunitário e afirmação pública da fé. Talvez o silêncio, ali, seja sinal de desprezo. Ou talvez o ritmo seja a linguagem natural de celebração — e “celebração” não é automaticamente falta de reverência; pode ser reverência alegre.

Isso não significa que “vale tudo”. Significa que, antes de corrigir, precisamos traduzir valores. Às vezes, o que chamamos de “irreverência” é apenas uma reverência com sotaque diferente do nosso.

No fim, não é o nosso gosto

Na prática, antes de corrigir um culto, traduza a sua escuta. Pergunte-se: que valores esse povo está tentando expressar aqui (reverência, alegria, temor, comunhão, hospitalidade, celebração, lamento)? O que é princípio bíblico e o que é preferência cultural? Quais elementos precisam ser confrontados pelo evangelho e quais precisam ser acolhidos como vasos legítimos para Cristo habitar?

Porque, no fim, a pergunta não é “isso parece com a minha igreja?”. A pergunta é: Cristo está sendo conhecido, obedecido e amado aqui? Não são nossos gostos que devem estar no centro, e sim Cristo.