Domingo, 8 de março. O objetivo da reunião do Clube de Aventureiros naquele dia era trabalhar um lema simples, mas profundamente desafiador: “Por amor a Jesus farei sempre o meu melhor.”
Por amor a Jesus, farei sempre o meu melhor — até nos dias mais comuns
À primeira vista, parece apenas uma frase bonita para ensinar às crianças. Mas, quando esse lema encontra a rotina real da vida missionária, ele ganha peso, forma e profundidade.
Naquele domingo, eu acordei às 5h30 da manhã para o meu momento devocional com Deus. Depois, tomei café e fui encher os latões de água que seriam usados ao longo do dia. Em lugares como Bissau, capital e maior cidade da Guiné-Bissau, tarefas assim não são apenas detalhes domésticos: elas fazem parte da estrutura da vida diária. O acesso à água potável melhorada avançou no país nas últimas décadas, mas ainda segue sendo um desafio importante para muitas famílias. Segundo o UNICEF, um estudo mostra que 65% dos poços abertos protegidos estão contaminados por coliformes fecais e a água não é segura para o consumo humano.
Bissau é uma cidade marcada por desafios reais, por uma juventude numerosa, por limitações estruturais e por uma vida cotidiana que exige resiliência. Mas é justamente em contextos assim que o evangelho mostra sua força de forma mais prática: transformando o ordinário em oferta.
Um lema simples em um contexto nada simples
Às 9h, eu já estava cansada. E foi exatamente nesse momento que percebi a força daquilo que eu ensinaria às crianças naquele dia: fazer o melhor por amor a Jesus não tem a ver com perfeição, mas com entrega. Ou seja, trata-se de assumir cada responsabilidade com fidelidade, mesmo quando o corpo já sente o peso do calor, da rotina e do cansaço.
Na reunião do Clube de Aventureiros, dividimos as crianças em grupos para trabalhar o lema. Com a minha turminha, ajudei no preparo de uma pequena encenação, para que elas pudessem internalizar a mensagem de maneira leve, concreta e participativa. Foi lindo e divertido.
Esse tipo de trabalho com crianças e adolescentes ganha ainda mais significado em um país jovem como a Guiné-Bissau. Um relatório recente do UNICEF destaca que há cerca de 1,1 milhão de crianças e jovens em um país de aproximadamente 2 milhões de habitantes, o que revela o enorme potencial, e também a enorme responsabilidade, de qualquer trabalho voltado às novas gerações.
Ao mesmo tempo, os desafios são reais. Segundo o UNICEF, a Guiné-Bissau apresenta taxa de conclusão do ensino primário abaixo de 30%. Além disso, 27,7% das crianças em idade escolar primária estão fora da escola. Por isso, espaços de formação, convivência, discipulado e cuidado com crianças se tornam ainda mais valiosos. Nesse contexto, ensinar um lema, ouvir uma criança ou conduzir uma pequena atividade com amor pode significar muito mais do que imaginamos.
Em Bissau, o calor também ensina
Março em Bissau é tempo de calor forte. Dados climáticos mostram que, nesse período, as máximas diárias costumam ficar por volta de 35 °C a 36 °C. Meu corpo mostra bem isso, por que, antes mesmo do meio da manhã, eu já queria uma banho e cama.
Talvez isso pareça um detalhe, mas não é. O calor, o esforço físico e a necessidade de resolver tarefas básicas antes de sair de casa fazem com que a ideia de “dar o meu melhor” deixe de ser abstrata. Ela passa a ser uma escolha muito concreta.
Dar o melhor, em um contexto como esse, pode significar continuar sorrindo enquanto você ensina crianças, mesmo já cansada. Pode significar servir com atenção quando seria mais fácil apenas cumprir a agenda. Pode significar escolher a excelência no espírito, ainda que o corpo esteja exausto.
O melhor nem sempre é extraordinário
Quando voltei para casa na hora do almoço, tive outra oportunidade de viver o mesmo lema que havia ensinado pela manhã. A Jennifer, uma missionária muito querida, estava resfriada e não se sentia bem, então preparei o almoço para nós duas. Depois organizei a cozinha e descansei um pouco antes da próxima atividade.
Foi um gesto simples. Mas é justamente aí que esse lema revela sua beleza: fazer o melhor por amor a Jesus quase sempre aparece primeiro nas pequenas coisas.
No fim do dia, tomei banho, preparei um lanche simples (suco, laranja e biscoito) e, como em quase todas as noites, fiquei conversando com as outras missionárias. Quando percebi, já eram 23h.
Antes de dormir, orei mais uma vez e agradeci a Deus por me dar a chance de, naquele dia, por amor a Ele, fazer o meu melhor.
Um convite que vai além de Bissau
A missão não acontece apenas nos grandes momentos. Muitas vezes, ela acontece no quarto organizado, na água carregada, na comida feita com carinho, no corpo que insiste em servir mesmo cansado.
Naquele domingo, o lema dos Aventureiros não ficou restrito à reunião das crianças. Ele atravessou o meu dia inteiro. E hoje ele continua ecoando aqui: “Por amor a Jesus farei sempre o meu melhor.” Esse também é o meu convite para você hoje.
Verlange Dummer, está servindo como missionária de curto prazo desde março de 2026, no projeto Geba, em Guiné-Bissau.





